quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Vocabulários em Economia

Alguns vocábulos ligados a dinheiro1 Nossa civilização sempre teve uma atitude ambígua para com o dinheiro: alguns o adoram, outros o desprezam, mas todos o respeitam e acabam precisando dele.
Independentemente de nossa posição política ou filosófica, nós convivemos com o dinheiro entre os limites de duas verdades indiscutíveis, que não chegam a se opor: ninguém vive sem dinheiro, mas ele não pode comprar tudo.
As palavras usadas para falar nele mostram um pouco da história desta convivência.
  • moeda — Vem do latim moneta, derivada do verbo monere ("avisar, aconselhar, lembrar") — da mesma família, portanto, de monumento ("o que deve ser lembrado") e de premonição ("aviso prévio de que algo vai acontecer"). Moneta ("a que avisa") era um dos nomes dados à deusa Juno, porque os romanos acreditavam que ela os havia advertido várias vezes da iminência de desastres militares e de catástrofes da natureza. No grande templo dedicado a Juno Moneta, que se erguia no Capitólio, foi instalada uma casa de cunhagem de dinheiro metálico, que logo passou a ser designado de moneta. Daí vieram moeda e monetário (port.), moneda (esp.), moneta (it.), monnaie (fr.) e money (ing.).
  • pecuniário — Vem do latim pecus, "gado", o mesmo radical que produziu pecuária. Antes da instituição do dinheiro como elemento de troca, a fortuna de alguém era avaliada pelo número de bois, ovelhas, cabras ou porcos que possuía; chamava-se de pecunia essa riqueza medida em cabeças de gado. Quando metais como o bronze, a prata e o ouro começaram a ser usados nas transações, os lingotes traziam estampadas figuras desses animais, o que faz supor que indicavam o valor, em gado, da peça metálica. Uma lei do séc. 4 a.C. estabelecia a proporção "1 boi = 10 ovelhas = 1 libra de bronze". Este costume está presente até hoje em povos pastoris do Oriente Médio e da África, em que o noivo oferece camelos, jumentos ou bois em pagamento aos pais da mulher com quem pretende casar. Daí também veio o pecúlio (lat. peculium, que designava o pequeno rebanho que um escravo conseguia juntar, pouco a pouco, geralmente para comprar sua própria liberdade) e o peculato (lat. peculatus, desvio do dinheiro público).
  • tributo — No início da civilização romana, o povo estava dividido em várias tribos — em latim, tribus, vocábulo que produziu vários derivados conhecidos: o tribuno era o magistrado da tribo, enquanto o tributo era a contribuição a ser paga pelos membros da tribo. O termo logo generalizou-se para abranger todo imposto ou taxa cobrado dos cidadãos romanos, passando a designar também o valor que um povo vencedor obrigava o povo vencido a pagar como símbolo de submissão e obediência. Naquela época, como até hoje, os poderosos raramente pagavam tributos, que eram suportados pelos comerciantes mais humildes, os camponeses e os pequenos proprietários. Esse infeliz contribuinte era chamado de tributarius — designação que se aplica, por metáfora, aos rios que vão desaguar em um rio maior: "o rio Tapajós é um dos mais importantes tributários do Amazonas".
  • capital — A origem remota de capital é o latim caput ("cabeça"). Inicialmente, o adjetivo capitalis significava "o que está acima dos outros; principal, dominante" — como se vê ainda hoje, quando dizemos que algo é de capital importância, quando falamos nos sete pecados capitais e quando chamamos de capital a cidade em que fica a sede do governo. No Renascimento, os famosos banqueiros italianos passaram a usar o termo capitale para designar a parte principal de uma quantia investida, excluídos os juros e os rendimentos que ela pudesse trazer. Pouco a pouco, com o desenvolvimento da Economia Política, o sentido foi sendo ampliado, até que, no séc. 19, passou a significar "a riqueza considerada como meio de produção", por oposição ao "trabalho", relação que Marx analisou no clássico O Capital.
  • lucro — Vem do latim lucrum, "ganho, vantagem". Na sociedade romana, ao contrário do que aconteceria durante o Cristianismo, nos século seguintes, o lucro era visto como um ganho legítimo que se auferia com uma atividade econômica bem sucedida. Em Pompéia, sob as cinzas e a lava do Vesúvio, encontraram uma casa que trazia escrita em seu portal a expressão Salve, lucrum! ("Bem-vindo, lucro!"), enquanto o mosaico do assoalho formava a frase Lucrum gaudium! ("O lucro é alegria!"). Os antigos já entendiam, no entanto, o lado perverso do lucro, como se vê pelo velho provérbio Lucrum unius est alterius damnum — "O lucro de um é o prejuízo de outro". A doutrina cristã, ao associar o lucro à usura, prática que sempre condenou, apagou a distinção entre lucro legítimo e ilegítimo, dando ao vocábulo uma carga pejorativa que só hoje, aos poucos, começa a se dissipar. É significativo que, do mesmo radical latino, nosso idioma formou também a palavra logro, que tinha inicialmente o mesmo significado de "ganho, vantagem", mas hoje significa "engano, embuste".
  • dinheiro — Vem do latim denarius, moeda de prata que valia dez asses, uma tradicional moeda de cobre. Por ser a moeda mais utilizada em Roma, tanto no Império quanto na República, o nome adquiriu valor genérico e passou a designar qualquer espécie de meio circulante. Entrou também no espanhol como dinero, no francês como denier (embora a forma preferida por aquele idioma seja argent — literalmente, "prata") e no italiano como denaro (embora a forma preferida seja soldo). O termo chegou até o árabe, que, em contato com os povos da Península Ibérica, importou a forma dinar. No fim da Idade Média, Portugal e Espanha chegaram a cunhar dinheiros de prata; é por isso que nas traduções mais antigas do Novo Testamento para nosso idioma, Judas não vende Jesus por trinta moedas de prata, mas por "trinta dinheiros".
  • juros — É uma palavra de origem ainda obscura, que entrou no nosso léxico por volta do séc. 12, quando o idioma ainda estava se formando. Muitos autores — entre eles, Houaiss, no seu excelente dicionário — derivam-na de jus, juris ("direito, justiça"): os juros seriam o que é direito receber pelo aluguel de uma determinada quantia. Das línguas românicas, só o português usa este termo; as demais usam o equivalente ao nosso interesse, que também podemos usar como sinônimo de juro: interés (esp.), interesse (it.), intérêt (fr.). Muitos foram os filósofos e pensadores que condenaram a cobrança de juros, sob o princípio de que uma entidade como o dinheiro, sendo estéril, não deveria produzir filhotes. O Cristianismo os diabolizou ainda mais, ao usar o termo como sinônimo da usura, que sempre combateu. Só no séc. 18, quando as leis da Economia começam a ser estudadas cientificamente, é que se propõe a distinção entre os dois vocábulos, usando-se juro para designar a taxa de remuneração pelo uso do dinheiro, e usura para o empréstimo de dinheiro a taxas superiores às legais (...).




1 www.sualingua.com.br de Cláudio Moreno.